PALAVRAS PARA CÁNDIDA, A MINHA MÃE BRANCA.

PALAVRAS PARA CÁNDIDA, A MINHA MÃE BRANCA.

11. Maio 2022 0 Por Araújo
Estou triste. Acaba de falecer em San Nicolás de Bari, 60 km a sudoeste de Havana (CUBA), esta mulher guerreira, a mãe branca que eu tive. Mimou-me durante os meus anos de bolseiro em Cuba (1986-1992) e tive um quarto em sua casa, para os meus fins de semana.
Continuámos muito ligados estes anos todos depois do meu regresso a Angola, mais de vinte; fui sabendo dela sempre pela comunicação fluída que mantenho com o filho, o meu grande amigo e irmão Adolfo Sepúlveda Álvares “FITO”, e a neta, a Merián.
A última vez que com ela estive foi em Fevereiro de 2013 (há exactos 15 meses, ou seja, 1 ano e 3 meses) , quando fui a Havana participar da Feira Internacional do Livro. Fez de propósito a viagem de San Nicolás de Bari até Havana, 60 km, nos carros desbaratados que circulam na ilha caribenha. Já não se mantinha de pé, dependia da cadeira de rodas em que a fotografei.
Transportamo-la do rés do chão até ao quarto andar, o apartamento de um sobrinho, um grande médico. Espantou-me a sua lucidez aos 90 e picos anos de idade. Perguntou-me, com a mesma serenidade de sempre: “Então, negrinho, sempre o mesmo né? Bem disposto como sempre? A Paula, a Tula, o Jorge, estarão grandes os teus filhotes né?”. Tinha conhecido a minha família em 1999, quando fiz questão de levar a tribo a Cuba para conhecerem parte fundamental do meu percurso.
Essa noite, no meio de uma barulheira à cubana, bebemos uns quantos cálices de rum, depois de termos esvaziado a geleira do seu stock de cerveja. Demos cabo da lucidez com doses virtuosas de Havana Club e ela, a minha mãe branca que agora nos deixa, ainda teve tempo de exercitar o seu humor cáustico: “Meninos, será que sabem que há gente a dormir no apartamento ao lado e que daqui a pouco é manhã? Parece que há uma viagem de 60 km a fazer, para casa”.
Respondi-lhe: “Cândida, esta noite é para ti”. Faltou-me completar com os pensamentos que me ocorreram: “pode mesmo ser a última vez que vejo esta mulher que me tratou com tanto afecto e de quem a minha mulher dizia sempre ‘mas que fina é ela, uma grande dama, nem quero imaginar os seus anos jovens’.
No domingo passado, o Fito mandou-me um email a falar do agravamento do estado de saúde dela. Eu estava numa reunião animada a preparar os próximos passos à volta das GRUTAS DO NZENZO. Respondi-lhe a voar: ” Fito, segura a barra. Louvo-te a coragem por contares-nos a verdade do modo como o fazes no teu email. Estou numa maratónica reunião, mas escrevo-te depois, em ambiente mais calmo”. Ontem, no Uíge, pelo facebook, a triste notícia chegou-me via Facebook, a partir dos Estados Unidos da América. Egilieta, a mulher do Fito, foi directa: “Luís, tenho uma má notícia para te dar, ontem à tarde perdemos a Cândida. Avisa a Maria Regla do infortúnio”.
Paralisei!
Quem me dera dispor de uma cápsula ET para ir a San Nicolás em minutos e dar um último beijo a esta mulher branca nascida e educada em ambiente de extremo racismo (a Cuba de antes da Revolução de Fidel Castro) e que superou o abominável complexo para abrir-me o seu coração e mimar-me como o seu filho negrinho durante quase 30 anos de convívio. “La vida no vale nada”, escrevi no SMS que enviei à Maria Regla, em Luanda, a comunicar-lhe a ocorrência.
Chove no Uíge. Podem ser lágrimas para a minha mãe cubana.
Adeus Cândida. Podes desfazer o meu quarto, sem ti já não me serve de nada…
UÍGE , 8 DE MAIO DE 2014